Portal Expresso

Domingo, 24 de outubro de 2021
MENU

Geral

De tornados a calor de 50°C: SC tem metas para conter efeitos das mudanças climáticas?

Efeitos da emissão de gases poluentes vão da intensificação de eventos extremos ao aumento de refugiados

447
Publicidade
Imagem de capa
A-
A+
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Os efeitos do aquecimento global, provocado pelo crescente aumento da emissão de gases poluentes no planeta, é um assunto debatido e alertado há mais de 30 anos por autoridades científicas ao redor do mundo.

De acordo com o alerta de cientistas, eventos extremos como tornados, calor intenso e enchentes tendem a ocorrer com mais frequência e intensidade, caso medidas efetivas não sejam tomadas.

Santa Catarina já vive de perto vários efeitos ingratos provocados pelas mudanças climáticas. E eles podem ser ainda mais devastadores no futuro. Dessa forma, será que o Estado tem planos e ações adequadas para enfrentar o problema?

O Brasil é um dos países que assinou o Acordo de Paris, em 2015, com o compromisso de reduzir a emissão dos gases poluentes e o desmatamento.

“Este acordo tem o objetivo de reduzir as emissões de gás de efeito estufa até 2030, 2040. Mas essas reduções estão muito em cima de uma redução do desmatamento, então isso não envolve apenas, por exemplo, a Floresta Amazônica. A gente tem percebido o desmatamento em todos os biomas, e isso envolve Santa Catarina”, diz o professor de Direito e Relações Internacionais da Univali (Universidade do Vale do Itajaí), Charles Alexandre de Souza Armada.

“Existe uma organização que faz o monitoramento e acompanhamento das áreas que estão sendo desmatadas em todo o território nacional. A gente tem esse controle e tem acesso a esses dados e estamos percebendo um aumento considerável nas áreas desmatadas em todos os biomas”, alerta Charles Alexandre.

Dados do desmatamento

O professor, que estuda mudanças climáticas e desastres ambientais, expõe os dados alarmantes de desmatamento registrados nos últimos anos em todo o Brasil.

“Entre 2019 e 2020, houve crescimento de 19% no desmatamento da Amazônia, 6% no Cerrado, 120% na Mata Atlântica, 99% no Pampa, 43% no Pantanal e o recordista foi a Caatinga, com 400%”, aponta.

Charles Alexandre reforça que o desafio demanda a inclusão de toda a sociedade, mas principalmente do governo.

“Cada um tem que fazer a sua parte?  Sim, mas as maiores ações obrigatoriamente ficam por conta do poder público. E quando se fala sobre poder público envolve, claro, municípios, os Estados, mas principalmente o Governo Federal, que é quem detém os recursos para atuar efetivamente nesse âmbito”.

Quais são os planos de Santa Catarina

Sema (Secretaria Executiva do Meio Ambiente), do governo de Santa Catarina, informou quais são as medidas e planejamentos em curso para o tema no Estado. De acordo com a Secretaria, a tônica tem sido “transformar os desafios da descarbonização da economia em oportunidades de desenvolvimento sustentável”.

“Santa Catarina priorizou a realização de importantes programas, projetos, iniciativas, ações, bem como o desenvolvimento de sistemas integrados para alcançar a ação efetiva frente à crise climática que enfrentamos”.

O Estado conta, atualmente, com dados de emissão do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa), para o direcionamento das ações de mitigação e adaptação nos setores.

“É importante ressaltar, contudo, que independente da finalização dos planos acima citados, Santa Catarina está agindo para diminuir a redução de gases de efeito estufa e para preparar a sociedade para a adaptação às mudanças climáticas”, declarou a Sema, em nota.

O Estado destaca, ainda, que é o único governo brasileiro que participa do projeto piloto CDP Supply Chain Governos. “Neste escopo, convida fornecedores e empresas de sua jurisdição para reportarem as suas ações climáticas”.

A intenção do governo de Santa Catarina é engajar até 80 empresas para a redução de emissões e vulnerabilidade, além de identificar oportunidades colaborativas de inovação e de implementação de projetos de sustentabilidade por meio do projeto.

Confira as ações ambientais em curso pelo governo de SC:

  • SIMAD (Sistema Integrado de Monitoramento e Alertas de Desmatamento);
  • IFFSC/MonitoraSC (Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina);
  • Monitor de Secas;
  • Boletim Hidrometeorológico Integrado;
  • CDP States and Regions e CDP Cities;
  • Defesa Civil na Escola;
  • Programa Produtor de Águas;
  • Gestão da Qualidade do Ar;
  • Programa Empresas Sustentáveis e proposta de lei para criação da Política Estadual de Transição Energética Justa do Estado de Santa Catarina.

No dia 21 de julho deste ano, o Estado encaminhou à Alesc (Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina) o projeto de lei que institui a Política Estadual de Transição Energética Justa, considerada como a nova política estadual do carvão.

Este plano busca promover o desenvolvimento sustentável das cadeias produtivas catarinenses, promover emprego e desenvolvimento. O projeto de lei atualmente tramita na Comissão de Constituição e Justiça e depende ainda da totalidade da tramitação no Legislativo para avaliação e aprovação.

O objetivo, segundo a Sema, é “encontrar soluções inovadoras que envolvam tecnologias limpas, novos modelos de negócios e políticas públicas integradas, tendo como prioridade contemplar todos os envolvidos, atrair investimentos e acelerar a geração de empregos nas regiões”.

Metas do Estado são suficientes?

O professor Charles Alexandre de Souza Armada atesta uma falha de metas mais claras estabelecidas pelo governo. “Ele é meio vago, não tem metas. Esse é um ponto”, destaca.

“Teríamos que ter mais dados, como quais foram as emissões, o total de emissão nos últimos anos… para a gente saber se está aumentando ou diminuindo”, complementa o professor.

Um relatório levantado pela CDP Latin apurou que apenas cinco Estados do Brasil têm metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. O país irá chegar à COP 26, na Escócia, em novembro, na categoria “devedores”.

Segundo o status de adoção de instrumentos de gestão de governança climática, Santa Catarina apresentou ao CDP apenas um inventário de emissões de escala regional. Mas ficou em falta um Plano de Ação, Meta de Redução, Estudo de Vulnerabilidade e Plano de Adaptação.

Charles Alexandre afirma que um passo importante seria ter dados mais abertos, com comparações e mais fácil observação da sociedade. “Não temos dados mais concretos de metas para acompanharmos de perto, ano a ano”.

Quais os efeitos das mudanças climáticas em SC e no mundo?

As consequências já podem ser observadas, e devem piorar cada vez mais, como salienta o professor da Univali. Os próprios tornados, vistos recentemente no Estado, têm direta relação com as mudanças climáticas.

“Uma das consequências do aquecimento do planeta é a mudança na dinâmica climática. O aumento de temperatura nos oceanos, na superfície, tem impacto no clima do planeta. E aí a consequência é a intensificação de fenômenos”, diz.

Ondas de calor intenso estão ocorrendo com mais frequência ao redor do mundo  – Foto: Jean Balbinotti/ND
Ondas de calor intenso estão ocorrendo com mais frequência ao redor do mundo  – Foto: Jean Balbinotti/ND

“Há uma tendência de aumento na frequência de eventos extremos no mundo todo. Ondas de calor, por exemplo, são eventos extremos, segundo a ciência. Estamos falando de um local que tem uma temperatura máxima de 30°C chegar aos 40°C. O planeta está acostumado a ter um evento de onda de calor intensa assim a cada 50 anos, isso é normal”, explica.

“O problema é que esses eventos tiveram um aumento de frequência e temperatura. Já não acontece mais uma vez a cada 50 anos, e sim uma vez a cada cinco anos. E se essa tendência de aumento de temperatura continuar, até o final do século teremos um evento extremo desse a cada ano. Como foi em agosto deste ano, com o Canadá com 50°C, a Itália com 48,6°C, a França com 48°C também”, explica Charles Alexandre.

O profissional cita o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), que apresenta projeções sobre as mudanças climáticas no mundo.

“Ele diz que se o aumento da temperatura do planeta se mantiver em 1,1°C, aumentam as chances de a gente ter esses tipos de eventos. No Acordo de Paris, os países concordaram em limitar o aumento da temperatura do planeta – em relação ao início do período industrial – em apenas 1,5°C até o final do século. Neste momento nós estamos com 1,1°C, e faltam 79 anos”, relata.

“O [ex-presidente dos Estados Unidos] Barack Obama falou, em um de seus discursos, que nós somos a primeira geração que tem a possibilidade de reverter esse quadro, das mudanças climáticas. E ele finaliza a declaração dizendo que nós somos a primeira e a última, porque se a gente não fizer as pessoas não vão ter o que fazer. É bem forte essa declaração”, conclui Charles Alexandre.

Tornados e calor de 50°C: possíveis efeitos são preocupantes

Segundo o professor da Univali, além dos tornados que ocorrem com mais frequência no Oeste de Santa Catarina – que é uma região propícia para a formação do evento -, as mudanças climáticas podem proporcionar eventos em outras regiões do Estado, até mesmo nas grandes cidades litorâneas.

“Não é impossível. A tendência é que esse tipo de evento se torne mais frequente e mais intenso. Não apenas aqui, mas também onde normalmente já tem esse tipo de fenômeno, como por exemplo lá no Caribe, que é uma rota de furacões. No entanto, à medida que a situação continuar, que as concentrações dos gases de efeito estufa continuarem a se acumular na atmosfera, e por consequência a gente ter um aumento de temperatura, como estamos identificando – dos 21 anos do século XXI, tivemos recordes de temperatura em 20 deles -, nós vamos ter uma deterioração dessa dinâmica climática global”, diz o professor.

Os possíveis eventos são desastrosos, como relata Charles Alexandre.

“Isso representa mais chuvas torrenciais, maiores níveis de precipitação, mais ondas severas de calor, invernos mais rigorosos. Sem contar outros eventos, que de uma maneira paulatina, já vem se verificando, como a elevação dos oceanos, por exemplo”, afirma.

“De acordo com as projeções do IPCC, se a gente chegar em quatro graus de aumento da temperatura até o final do século, isso significa um aumento no nível de oceanos entre 60cm a 1m. Imagine, metade da população mundial vive em zonas costeiras. Dá para mensurar o impacto que isso pode ter? Em Itajaí, por exemplo, tem uma altura média em relação ao nível do mar de apenas 1m. É bem preocupante”, finaliza.

Município de Itajaí, no litoral catarinense, tem altura média de 1m acima do nível do mar – Foto: Vizzotto Comunicação/Divulgação/ND
Município de Itajaí, no litoral catarinense, tem altura média de 1m acima do nível do mar – Foto: Vizzotto Comunicação/Divulgação/ND

Efeitos ao redor do mundo podem gerar crises de refugiados

Outro grande problema provocado pelo aquecimento global é o risco direto à continuidade da existência de diversos países. “Maldivas, Tuvalu, Kiribati, Seychelles…. eles já vêm perdendo território há alguns anos. Se continuar o aumento da temperatura, são países que podem desaparecer até o final do século”, explica o professor Charles Alexandre.

Com isso, há uma expectativa para a formação de uma grande “geração de refugiados”, que afetará o mundo inteiro, inclusive o Brasil e Santa Catarina.

“O Brasil é um país solidário, então ele abre os braços, como ele abriu por exemplo para receber os haitianos e também para receber os venezuelanos. O nosso país dá condições para que o imigrante possa entrar de uma maneira legal e possa tirar sua documentação. Com a documentação em mãos ele pode trabalhar, ele pode ser atendido no Sistema Único de Saúde, pode estudar”, pontua o professor.

No entanto, o país já vive diversos problemas sérios neste ponto, e que devem ser cada vez mais potencializados à medida que mais pessoas entrem no Brasil.

Refugiados da Venezuela no Brasil, em 2018 – Foto: Romério Cunha/Casa Civil Presidência da República
Refugiados da Venezuela no Brasil, em 2018 – Foto: Romério Cunha/Casa Civil Presidência da República

“Agora, em paralelo a isso, é necessário que o país crie políticas públicas para poder acolher essa galera que está entrando, afinal de contas eles são de uma cultura completamente diferente da nossa, falam uma língua diferente da nossa, não estão acostumados com a nossa legislação… então não basta simplesmente dar acesso à documentação e ao trabalho. Isso é importante, mas faltam políticas públicas para poder acolhê-los”, aponta.

“E isso não é nada fácil. Veja que a gente tem dificuldade para tratar situações que envolvem exclusivamente os brasileiros. Quantos milhões de desempregados nós temos no Brasil hoje? A gente tem problemas internos. Então, ele recebe o imigrante, mas se coloca dele e vê que ele mesmo não tem essas políticas de acolhimento, de acompanhamento”.

O professor da Univali conclui com a observação de que se trata, por fim, de uma questão complexa e “multidisciplinar”.

“As mudanças climáticas passam por questões além dos direitos humanos, da geografia, da política… passa pela sociologia, pela antropologia, pelo direito, uma série de ciências, então precisa necessariamente desse olhar multidisciplinar.”

 

Fonte/Créditos: ND

Créditos (Imagem de capa): Foto: Piter Scheuer

Comentários:

Publicidade

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!

Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )